Conto Dois - Especial Dez Contos De Terror

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Numa cidade pequena, a língua do povo tem sempre muita ocupação: a vida alheia, os desmandos políticos, os "pobres" de uns e outros... O prefeito conservador desta cidadezinha interiorana tem um filho rebelde, roqueiro e cabeludisimo. A oposição xomba do "chefe do executivo municipal" por conta desse seu herdeiro desviado, com cabeleira de Sansão. Certo dia, o prefeito resolve mostrar ao povo que é um pai severo, com autoridade: Oferece um prêmio em dinheiro a quem cortar a juba de seu filho. Você agarraria esa oportunidade pelos cabelos? Neste conto bem-humorado, e ao mesmo tempo macabro, Pedro Bandeira demonstra que a inteligência humana tem limites; mas a estupidez, não.


Conto Dois: Os Cachos da Situação
Autor: Pedro Bandeira
A edição extra do seminário saiu às ruas repetindo em manchete o que a estação de rádio da pequena cidade vinha já transmitindo desde  a  madrugada, nos intervalos de cada audição de música sertaneja. Isso porque o programador, radialista frustrado na capital, sabia que os jovens adeptos de ritmos modernos dormiam ainda e só por volta do meio-dia ligariam seus aparelhos de som. Era "A hora do lavrador" e vinha logo a após "Toadas do meu tempo", desde que "Caipiras em revistas" saíra do ar quando o proprietário do Açougue Paraíso retirara o patrocínio ao passar à oposição.
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Mas foi mesmo através do disse-me-disse-ouvi-dizer que o povo inteirou-se do edita da Prefeitura, noite ainda, ao preparar-se para o roça-planta-colhe cotidiano.
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O juiz de Paz, com a costumeira tosse intestinal que todo despertar lhe provocava, cobriu os olhos remelentos com um par de lentes bem pequenas para seu rosto e passeou os olhos  pelos títulos do tabloide, numa reação costumeira, repetida sempre, durante longos anos, desde que o tinham enviado para aquele fim de mundo.
Era o jornal da situação, se bem fosse o único, e foi com desprezo que o calvo magistrado rea maldiçoou a providência divia que não lhe possibilitava, a ele, a oposição, editar um boletim sequer, que fizesse ver, ao estúpido povo daquela progressista cidade, os desmandos do atual burgomestre¹.

A novidade de uma edição especial serviu para azedar-lhe ainda mais o humor, que era sempre péssimo ao acordar e geralmente assim se mantinha até alta noite, quando finalmente conseguia vencer sua amenta insônia. A única justificativa cabível que ele poderia encontrar para aquela exceção seria uma mudança radical nos monótonos ataques a sua pessoa, investida essa pouco provável, uma vez que "aqueles fatos", conhecidos pelo alcaide², não poderiam ser divulgados, segundo acordo tácito entre os dois, respeitando o qual ele também se calaria quando "àquelas tantas coisas" que poderiam abalar os alicerces da Prefeitura.

Com efeito, não foi nada de pessoal o que a leitura lhe informou mas, quando o meritíssimo ergueu os olhos, de seus pulmões soltaram-se catarros milenares que, por petrificados, engasgaram-no quase à sufocação.
 *** 
 Chamavam-na "Galo do padre", pois a velhota chegava tão cedo para a primeira missa que, quando se iniciavam os ofícios, era invariavelmente encontrada dormitando com os terços na a escorrerem-lhe por entre as coxas.
Esta manhã, porém, lhe era especial, e seus olhinhos míopes sorriam, abaixando-se volta e meia para o amarrotado tabloide que apertava junto ao breviário.
Sentindo-se vinte anos mais jovem, ela contornou apressadamente a igrejinha, fazendo ressoar centenas de tique-taques sobre o único calçamento em condições da cidade, e embarafustou-se sacristia adentro sem licenças ou cerimônias, ido bater nervosamente à porta dos aposentos do vigário.

O respeitável pároco acordou sobressaltado, tendo apenas o tempo suficiente para abafar com as mãos o grito de surpresa ainda na garganta da rotunda marafona que lhe ajudava algumas noites a suportar o celibato. Mal havia coberto a camisola com a batina pelo avesso, encontrava-se frente a frente com a piedosa senhora que lhe enfiava o jornal pelas fuças, acompanhado por um matraquear ininteligível e tão excitado como talvez fora há meio século atrás  em ocasiões mais felizes.

O sacerdote sorria misteriosamente ao tomar conhecimento da novidade  para um lugar discreto, onde ela não pudesse surpreender os ruídos do espreguiçar da gorducha, que continuava evangélica, apesar dos integrantes esforços do bom padre, que muito se entristecia por esse insucesso na sua piedosa missão temporal.
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Nunca, como naquela manhã, o barbeiro exibira sua esplêndida dentadura postiça com tanto gosto. Com quatro rápidos golpes de navalha, recortou a primeira página do jornal e afixou o recorte com um pouco de sabão de barba na vitrine do seu estabelecimento.
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O delegado despachou o ordenança com um gesto. Aquele moço ainda haveria de trazer-lhe problemas com seu excesso de zelo. Não, ele não tomaria nenhuma providência especial. Que se danasse a Prefeito e suas ideias.
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O velho professor reuniu os cadernos que passara a noite corrigindo. Animaizinhos nojentos de dedos no nariz e olhar perdido na expectativa do sinal do recreio, os seus bons discípulos. Que lhes colhesse o demônio!
Saía apressadamente quando olhou o jornal enfiado sob a porta. A manchete gritava até a um míope;
PREFEITO OFERECE PRÊMIO A QUEM CORTAR OS CABELOS DE SEU FILHO
e,  logo abaixo, avidamente, ao erguer o jornal:
Atendendo aos apelos da moral e dos bons costumes que sempre caracterizam o povo de nosso querido município e dando mais um exemplo de probidade e eficiência que são apanágios da atual administração, resolveu o nosso querido Prefeito oferecer polpuda recompensa em dinheiro a quem conseguir cortar os cabelos de seu próprio filho!
EXEMPLO COMEÇA EM CASA
O Chefe do Executivo Municipal, compreendendo os reclamos da coletividade, que não mais podia suportar a afronta às nossas tradições democráticas e cristãs, consubstanciadas no desaprumo da juventude atual que, com roupas espalhafatosas e cabelos pelos ombros, escandalizava o mais liberal dos cidadãos, resolveu iniciar uma campanha moralizadora de nossas instituições.
ABAIXO AS CABELEIRAS!
"Extirparemos esse câncer de nossa sociedade" - declarou Sua Excelência à nossa reportagem - "Nem que para isso seja necessário começar por meu próprio filho, carne da minha carne, sangue do meu sangue! Todos me conhecem muito bem e sabem que não descansarei um só minuto..."
O velho mestre saiu de sua casa antegozando um dia  cheio.
Lembrava-se bem do filho do Prefeito. Fora seu aluno e talvez o rei dentre os medíocres que já tiveram ocasião de esfregar as jovens bundinhas em suas carteiras cambaias. Hoje era um rapaz magriço, olho morto, lembrando um cabo de infantaria que fugira misteriosamente da cidade uns dezessete anos atrás. Passava no mínimo doze horas por dia remexendo as cadeiras a som de músicas raramente suportáveis, exibindo roupas incrivelmente coloridas e a famosa cabeleira.

Ah, a cabeleira!
 Motivo de riso, espanto e horror em toda a cidade, era cópia exagerada da juba de algum dos guinchadores que motivavam seus saracoteio, ampla e sebosamente aureolando-lhe a cabeça. Dar-lhe-ia um aspecto feminil não fosse a carantonha cheia  de espinhas amarelas.
Aquele adolescente era a glória da oposição. Com que sádico prazer o Juiz não espinafrava seu principal adversário, jogando-lhe na cara o débil mental do filho! Nos últimos tempos, toda plataforma da oposição estava baseada em cores extravagantes e, principalmente, em cachos mal cheirosos, a ponto de bastar uma leve alusão a cabelo, para que o nosso bom alcaide perdesse a compostura aludindo a certos cabelos lá da doce mamãezinha do crítico.

De tal modo caíra o prestígio  do Prefeito, que seu último esforço  para reconquistar a simpatia geral redundara no mais completo vexame. Seus assessores haviam carinhosamente organizado, com banda de música e tudo o mais, a festiva inauguração do mictório público da praça da igreja. Mas, quando foi aberta a primeira porta, depois  do triunfal discurso do burgomestre, viu-se, confortavelmente uma cabeleira de crina de cavalo até o chão, que ali houvera sido colocado a mando do Juiz de Paz. E, para cúmulo do escárnio, a mão direita do espantalho empunhava um nabo de consideráveis proporções atado entre as pernas...

Agora, porém, aquele edital como um raio nos caminhos do Juiz. A grande saída, o golpe de mestre! O velho magistrado ficaria à míngua de seu prato favorito, vencido, o que era melhor, pelas suas próprias armas. Agora, toda a cidade lançar-se-ia pés desse extremoso, porém austero progenitor, que ão vacila em levar seu próprio filho ao achincalhe público em defesa dos mais altos interesses da cidade que lhe confiara os destinos. O Juiz haveria de lhe pagar. O nabo, o Prefeito ainda perdoaria - afinal não há mal alguma propaganda de tão estupenda masculinidade -, mas a cabeleira, e ainda por cima de crina de cavalo! Ah, essa afronta fora demais!

O professor fez ranger o portão do grupo escolar ao refletir nas conveniências do neutralismo político.
***
Quem exultou com a noticia foi o piedoso sacerdote, que ouvira rumores segundo os quais o jovem cabeludo andara fazendo sua iniciação ao evangelismo junto à sua gorducha.
Exultou a velha "Galos do padre", exultou o barbeiro e exultaram os seletos  frequentadores do Bar e Bilhares Cassino Real, para quem aquela quantia em dinheiro era pouco, perto da diversão que a aventura prometia. 

E, ao iniciar a semeadura, muito roceiro imaginava o que faria com o que aquele monte de notas. Dinheiro de sorte grande!
***
Mas, naquela manhã, o sol era mesmo do Prefeito. Arreganhava-se num sorriso estático, como se lhe tivesse dado ar na pontuda cara de rato gordo de laticínio.

Mais de mil vezes havia pedido, implorado, ameaçando, prometido, chorado, berrado para que seu querido único rebento aparasse um um pouquinho daquela cabeleira armada como um circo. Mas qual! O pequeno rebelde ostentava a carapinha como um troféu e chegava até a ameaçar com suicídio se, durante o sono, alguém ousasse tocar-lhe a cabeça.

Mas o bom do pai tomara afinal as devidas providências. Não havia nada a temer. Ninguém ousaria tocar no filho do Prefeito e , na pior das hipóteses, uma cachola mais arejada até que não viria mal a seu herdeiro. Pagaria a recompensa e pronto.

O que importava era a vitória. A cidade toda em polvorosa comentando a sua severidade e honradez, e o Juiz, enfiado a flamular ameaças, não duraria muito. Provavelmente solicitaria sua remoção para outra comarca e iria lamentar a humilhação e ruminar vingança em sossego e no anonimato.
***
A  maioria portava tesouras, ainda que se pudessem notar facas, foices e até alfanjes entre o rebuliço ululante da multidão que se aproximava da Prefeitura.
A porta escancarou-se com estrondo, e ao Prefeito foi exibida uma comprida cabeleira, de onde ainda pingavam grossas gotas de um vermelho escuro por entre os fragmentos de osso.
- cadê o dinheiro, seu Prefeito?  


Sobre o AutorPedro Bandeira
Nasceu em Santos - SP, em 1942. Já foi ator e diretor de teatro, professor, jornalistas e publicitário. Desde 1983 dedica-se inteiramente à literatura, tornando-se  um dos escritores  mais lidos por crianças e jovens no Brasil. Recebeu importantes prêmios literários, como o da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e o jabuti. O conto 'Os cachos da situação" é inédito.
TODOS OS CONTOS POSTADO NO ESPECIAL DEZ CONTOS DE TERROR SÃO TIRADOS DO LIVRO: Histórias para não dormir.
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