Especial: Dez Contos de Terror

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Conto Um: Sredni Vashtar
Autor: Saki


No conto a seguir, a imaginação é o único refúgio de um menino doente, frágil, sem carinho de mãe e submetido a uma tutora, a quem ele detesta. Brincando solitário, um barracão se transforma num reino de fantasia, onde ele pode dar asas a sua imaginação. Assim, o garoto chega ao extremo de criar um entidade primitiva: um deus animal, ao qual dá nome, oferece preces, hinos... até o momento de ele pedir uma dádiva. Será que um desejo secreto - sussurrando em sua mente - pode se tornar realidade? Mas um animal com garras e presas afiadas pode ser um perigo mortal! No mundo do menino Conradin, parece não haver nenhuma inocência... nem limites para o poder da imaginação.

I
Conrandin tinha dez anos de idade e o médico manifestou sua opinião profissional de que o menino não viveria nem cinco anos mais. O médico era sedoso e efeminado, e contava pouco, mas sua opinião era endossada pela senhora De Ropp, que contava muito. A senhora De Ropp era prima e guardiã de Corandin e aos olhos dele ela representava aqueles três quintos do mundo que são necessários, desagradáveis e reais; os outros dois quintos, em perpétuo antagonismo com precedentes, resumiam-se a ele próprio e sua imaginação. Conradin achava que um dia desses ia sucumbir à dominante pressão de coisas necessárias e cansativas, como doenças, restrições opressivas e aborrecimentos planejados. Sem sua imaginação, que era exuberante sob a pressão da solidão, ele teria sucumbido há muito.

A senhora De Ropp jamais confessaria, mesmo em seus momentos mais sinceros, que não gostava de Conradin, embora pudesse ter uma vaga consciência de que oprimir o menino "para o seu bem" era um dever que não achava particularmente desagradável. Conradin a odiava com uma desesperada sinceridade, que era perfeitamente capaz de mascarar. Os poucos prazeres que conseguia arquitetar para si mesmo ganhavam um tempero extra pela probabilidade de que seriam desagradáveis à sua guardiã, e do reino de sua imaginação ela era banida: uma coisa impura, que não podia ganhar admissão. 

No jardim sem graça e triste, vigiado por por tantas janelas sempre prontas a se abrir com uma mensagem e não fazer isto ou aquilo, ou um lembrete de que estava na hora do remédio, ele encontrava pouco atrativo. As poucas árvores frutíferas, ali existentes ficavam ciosamente impedidas de colher delas, como se fossem raros espécimes de suas especie a florescer num  árido sertã; provavelmente seria difícil encontrar um verdureiro que oferecesse dez xelins¹ por toda a produção anual. Num canto esquecido, porem, quase escondido atrás de um arbusto, havia um barracão de ferramentas abandonado, de proporções respeitáveis, e entre suas paredes Conradin encontrou um abrigo, algo que assumia aspectos variados de sala de brincadeiras e catedral. Ele o havia povoado com uma legião de fantasmas familiares, evocados em parte de fragmentos de história, em parte de sua própria cabeça, mas exibia também dois ocupantes de carne e osso. Num canto vivia uma galinha Houdan de plumagem despenteada sobre a qual o menino despejava um afeto que não tinha nenhuma outra forma de se manifestar. Mais para o fundo, no escuro, ficava uma gaiola grande furão que o menino do açougueiro tinha trazido escondido, gaiola e tudo, para sua atual localização, em troca de um monte de moedinhas acumuladas em longo tempo.

Conradin morria de do bicho ágil, de presas afiadas, mas era a coisa mais preciosa que possuía. Sua mera presença no barracão de ferramentas era uma alegria secreta e amedrontadora, a ser mantida escrupulosamente escondida da Mulher, como ele chamava em particular sua prima. E um dia, sabe-se lá de onde, ele inventou para o bicho um nome maravilhoso, e desse momento em diante o furão transformou-se num deus e numa religião. A Mulher praticava a religião uma vez por semana numa igreja próxima e levava Conradin com ela, mas aquele culto era-lhe estranho. Toda quinta-feira, no silencio penumbroso e embolado do barracão de ferramentas, ele celebrava um mistico  e elaborado cerimonial diante da gaiola de madeira onde vivia Sredni Vashtar, o grande furão. Flores vermelhas em sua estação e frutas roxas no inverno eram ofertadas em seu altar, porque ele era um deus que punha certa ênfase especial no lado ferozmente impaciente das coias, ao contrário da religião da Mulher, que, na medida em que Conradin conseguia perceber, ia bem longe em direção contrária. E nas grandes festas, noz-moscada em pó era espalhada na frente de sua gaiola, sendo um aspecto importante para celebrar algum evento passageiro. Numa ocasião, quando a senhora De Ropp sofreu uma aguda dor de dentes por três dias, Conradin manteve a festa durante as três dias inteiros e quase conseguiu se convencer de que Sredni Vashtar era pessoalmente responsável pela dor de dentes. Se aquilo durasse mais um dia, o suprimento de noz-moscada teria se esgotado.

II
A galinha Houdan nunca participava do culto a Sredni Vashtar. Conradin tinha determinado havia muito que ela era uma anabastista. Ele não fingia ter a mais remota ideia do que seria uma anabastista, mas em particular esperava que fosse algo ousado e não muito respeitável. A senhora De Ropp era o nível  no qual ele baseava e detestava toda respeitabilidade.
Depois de algum tempo, a concentração de Conradin no Barracão de ferramentas começou a atrair a intenção de sua guardiã.
-Não é bom para ele ficar vagabudiando lá o tempo todo. -  ele decidiu prontamente.
E anunciou um dia ao café da manhã que a galinha Houndan tinha sido vendida e fora levada embora durante a noite. Com seus olhos míopes ela examinou Conradin, á espera de que tivesse um ataque de raiva ou de tristeza, que estava pronta a reprimir com uma torrente de excelentes preceitos e argumentos. Mas conradin não disse nada: não havia nada a dizer. Alguma coisa talvez em seu rosto vazio deu a ela certa momentânea inquietação, pois na hora do chá naquela tarde havia torrada na mesa, uma iguaria que ela normalmente proibia sob o argumento de que ela normalmente proibia sob o preparo da torrada "dava trabalho", ofensa mortal ao olhar feminino da classe média.
- Pensei que gostasse de torrada - ela exclamou, com ar injuriado, vendo que ele não a tocara.
- Às vezes - disse Conradin.
No barracão naquela noite, houve uma inovação no culto do deus engaiolado. Conradin estava acostumado a toar-lhe louvores; naquela noite pediu uma benção. 
- Faça uma coisa por mim, Sredni Vashtar.
A coisa não foi especificada. Como Sredni Vashtar era um deus , ele deveria saber. E, engolindo um soluço ao olhar para o outro canto, vazio, Conradin voltou ao mundo que tanto detestava. 
E toda noite, no escuro bem-vindo de seu quarto, e toda tarde na penumbra do barracão de ferramentas, elevava-se a amarga litania de Conradin.
- Faça um coisa por mim, Sredni Vashtar.
A senhora De Ropp notou que as visitas ao barracão não cessaram e um dia fez mais uma inspeção.
- O que você guarda tancado naquela gaiola? -  ela perguntou. - Acho que são porquinhos-da-índia. Vou mandar levar embora. 
Conradin fechou a boca com força, mas a Mulher revisou seu quarto até encontrar a chave cuidadosamente escondida e sem demora marchou para o barracão, a fim de completar sua descoberta. Era uma tarde fria e Conradin fora orientado a permanecer na casa.  Da janela mais distante da sala de jantar dava pra ver a porta do barracão além do canto do arbusto e ali Conradin fora orientado a permanecer na casa. Da janela mais distante da sala de jantar dava para ver a porta do barracão além do canto do arbusto e ali Conradin  se posicionou. Viu a mulher entrar, e então imaginou que ela abria a gaiola sagrada e espiava com seus olhos míopes a farta cama de palha onde seu deus estava escondido.

Talvez ela apalpasse a palha em sua desajeitada impaciência. E Conradin sussurrou ardentemente sua prece pela última vez. Mas sabia ao rezar que não acreditava. sabia que a Mulher sairia naquele momento estampado no sorriso que ele tanto detestava e dentro de uma ou duas horas o jardineiro levaria embora seu maravilhoso deus, não mais um deus, mas um simples furão marrom numa gaiola. E ele entendeu que a Mulher triunfaria sempre como triunfava agora e que ele cresceria sempre mais adoentado debaixo da sabedoria superior, dominadora e incomodativa até um dia nada mais importar muito para ele e o médico provar que tinha razão. E, no aguilhão e a desgraça de sua derrota, ele começou a entoar em voz alta e desafiadora o hino de seu ídolo  ameaçando:

III
 Sredni Vashtar avançou seus pensamentos eram pensamentos vermelhos e seus dentes, brancos.
Seus inimigos pediam paz, mas ele levou-lhes a morte.
Srdni Vashtar, o Belo.
E então de repente ele interrompeu seu canto e chegou mais perto da vidraça. A porta do barracão ainda estava aberta como tinha sido deixada  e os minutos  passavam. Foram longos minutos, mas passaram mesmo assim. Viu os estorninhos correrem e voarem em pequenos bandos pelo gramado; contou-os uma e outra vez, com um olho sempre na porta de vai e vem. Uma criada de cara azeda entrou para arrumar a mesa do chá e mesmo assim Conradin ali ficou, esperou, observou. A esperança havia se infiltrando aos milímetros em seu coração e agora um ar de triunfo começara a reluzir em seu coração e agora um ar de triunfo começara a reluzir em seus olhos que tinha conhecido apenas a sensata paciência da derrota. Baixinho, com uma furtiva exultação, ele começou uma vez mais seu canto de vitória e devastação. E então seus olhos piscando foram recompensados: por aquela porta passou um bicho longo, baixo, amarelo e marrom, com olhos piscando à luz minguante do dia e escuras manchas úmidas em torno da boca e do pescoço. Conradin caiu de joelhos. O grande furão desceu até um pequeno regato nos fundos do jardim, bebeu um momento, depois atravessou a pontezinha de madeira e sumiu de vista nos arbustos. Assim foi a passagem de Sredni Vashtar.
- O chá está pronto  - Disse a criada de cara azeda - Onde está a patroa?
- Ela foi até o barracão faz algum tempo - disse Conradin.
- E, enquanto a criada ia chamar sua patroa para o chá, Conradin pegou um garfo a tostar da gaveta do aparador e passou a torrar para si um pedaço de pão. E enquanto  o torrava e passava bastante manteiga, enquanto gozava o lento prazer de comê-lo, Conradin ouviu os ruídos e silêncios que vinham em rápidos espasmos do outro lado da sala de jantar. O grito desvairado da empregada, o coro de exclamações assombradas em resposta na cozinha, os passos corridos e as apressadas buscas de ajuda externa, e então, depois de uma pausa, os soluços assustados e o passo arrastado daqueles que traziam uma carga pesada para dentro da casa.
- Quem vai contar para o pobre menino? Eu não tenho coragem!
- Exclamou uma voz aguda.
E, enquanto discutiam o assunto entre eles, Conradin preparou para si mais uma torrada.
Tradução de José Rubens Siqueira


Sobre o autor
Saki

Pseudônimo literário do britânico Hector Hugh Munro (1870-1916), é considerado um dos melhores contistas do seu tempo. Suas narrativas costumam trazer críticas à sociedade e finais surpreendentes. Criado por duas tias rabugentas, não teve uma infância feliz - talvez por isso muitas de suas histórias mostrem a crueldade de que as crianças são capazes. O conto "Sredni Vashtar" foi publicado em 1911, no livro The Chronicles of Clovis.

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